quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sangue no Celular

Minerais usados para fabricar telefones celulares (e outros eletrônicos) estão sendo usados para financiar conflitos armados na República Democrática do Congo (RDC). Estima-se que por volta de 5 milhões de pessoas já morreram devido aos conflitos financiados pelos minerais da indústria de eletrônicos.

Um dos principais materiais usado nos equipamentos eletrônicos é o tantalum, usado para fazer capacitores, onde a RDC, em 2009, correspondia com 13% da produção mundial, ou seja, 87 toneladas*. Ele é extraído juntamente do niobium do minério colombotantalite, também conhecido como coltan. Outro minério também extraído na RDC é a cassiterite que é a principal fonte do elemento estanho.

Os problemas começam a aparecer no próprio governo da RDC onde altos funcionários do governo ligados ao Ministério de Minas também são donos de empresas de mineração gerando conflitos de interesse. Mas apesar disso esses não são os chamados minérios de sangue que são extraídos de zonas de conflitos.

Um desses locais é Walikale na província de Kivu onde se encontra a mina de Bisie que oficialmente é controlada pelo FARDC, o exército nacional. Mas na verdade quem controla é a 85º brigada que se tornou independente do exército nacional. Todos os dias 600 carregadores saem da floresta com 30 toneladas de minerais para serem comercializados.

A relação do exército e/ou grupos armados com esses minérios é através de cobrança de "impostos". Eles permitem que a população local faça todo o trabalho duro e depois simplesmente coletam os "impostos" desses trabalhadores. Esses “impostos” são tão abusivos fazendo com que as pessoas ganhem apenas dinheiro suficiente para comprar comida, e muitas vezes nem para isso impedindo-as de sair devido as dívidas.

As minas são tão precárias que lembram a época de quando o rei da Bélgica, Leopoldo II, era dono do Congo, isso mesmo, o Congo pertencia a uma pessoa, não era uma colônia como as outras. Praticamente não existem máquinas apenas pessoas com pás, picaretas, marretas e cinzéis escavando buracos em montanhas que frequentemente desabam matando muitas pessoas.

Estimasse que apenas em Bisie produz-se cerca de 70 milhões de dólares em minerais por ano. E existem centenas de minas como esta no Congo.

A Nokia diz que tomou ciência da situação em 2001 mas até hoje, mais de 10 anos se passaram, e a única respostas deles é que estão desenvolvendo mecanismos para rastrear esses minerais, ou seja, não tomaram nenhuma medida prática para melhorar a situação. E como ela é a líder mundial em telefones celulares, um em cada três no mundo é Nokia, se eles estão envolvidos com minerais de sangue provavelmente todas as outras fabricantes também estarão.

Um porta-voz da Nokia diz que não é possível rastrear os minerais que são usados nos componentes eletrônicos de seus celulares o que não é inteiramente verdade. Não é possível rastrear depois de transformados em metal, mas antes desse processo o cientista Dr. Frank Melcher junto com alguns de seus colegas do Instituto Federal de Recursos Naturais e Ciência Geológica em Hanôver na Alemanha desenvolveram um método que torna perfeitamente possível através de uma análise do volume da composição do mineral descobrir sua idade geológica e consequentemente sua origem, e isso seria o equivalente a impressão digital do mineral. Em cima disso existem diversas ONGs, como a Global Witness, que dizem que uma maneira simples e barata seria simplesmente as fabricantes de eletrônicos tornarem suas cadeias de suprimentos de conhecimento público, publicando nas suas páginas na internet, e exigir que seus fornecedores de componentes eletrônicos façam o mesmo ou simplesmente garantindo que seus equipamentos eletrônicos não sejam feitos com minerais de zonas de conflito como sugere John Prendergast, que foi um assessor no governo do presidente Clinton.

A melhor solução é nós, os consumidores, fazer pressão, exigindo que essas corporações certifiquem que seus produtos não são feitos com minerais de zonas de conflito, boicotando as empresas que não estiverem dispostas a nos dar essas garantias.



Referências:

* Wikipedia: Coltan

Documentário de 2010, Blood in the Mobile de Frank Piasecki Poulsen.

Trailer:




Artigo de Francisco Roland Di Biase.

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