quarta-feira, 17 de abril de 2013

Chernobil: Consequências da Catástrofe para as Pessoas e o Meio Ambiente


Artigo científico mostrando como o acidente da Usina Nuclear de Chernobil pode ter ceifado a vida de quase 1 milhão de pessoas durante os primeiros 23 anos após a tragédia. Traduzi a última parte porque são as conclusões dos autores, ou seja, o que ocorreu com as pessoas e o meio ambiante devido a radiação.

Tradução da parte 15 (pág 318 a 327) do artigo “Chernobyl - Consequences of the Catastrophe for People and the Environment” por Alexey V. YABLOKOV, Vassily B. NESTERENKO e Alexey V. NESTERENKO publicado pela Academia de Ciências de Nova York no “Annals of the New York Academy of Sciences”, Volume 1181 em 2009.

*Se alguém identificar erros na tradução insisto que deixe um comentário uma vez que existem muitos termos técnicos da área médica e nuclear.




Chernobil: Consequências da Catástrofe para as Pessoas e o Meio Ambiente

15. Consequências da Catástrofe de Chernobil para Saúde Pública e o Meio Ambiente 23 Anos Depois
Por Alexey V. Yablokov, Vassily B. Nesterenko, e Alexey V. Nesterenko



Mais de 50% dos radionuclídeos de Chernobil foram dispersos fora da Bielorrússia, Ucrânia e da Rússia europeia e provocou precipitações tão distantes como na América do Norte. Em 1986 quase 400 milhões de pessoas viviam em áreas contaminadas radioativamente com um nível superior a 4 kBq/m2 e cerca de 5 milhões de pessoas ainda estão sendo expostas a níveis perigosos de contaminação. O aumento da morbidade, envelhecimento precoce, e mutações foi observado em todos os territórios contaminados que foram estudados. O aumento nas taxas de mortalidade total para os primeiros 17 anos na Rússia europeia foi de até 3,75% e na Ucrânia, foi de até 4,0%. Os níveis de radiação interna estão aumentando devido às plantas que absorvem e reciclam Cs-137, Sr-90, Pu e Am. Nos últimos anos os níveis internos de Cs-137 ultrapassaram 1 mSv/ano, que é o considerado "seguro", esses devem ser reduzidos para 50 Bq/kg em crianças e 75 Bq/kg em adultos. Práticas úteis para fazer isso incluem a aplicação de fertilizantes minerais em terras agrícolas, lignina organossolúvel e K em florestas e consumo individual regular de solventes parentéricos de pectina natural. Ajuda internacional em larga escala é necessária para fornecer proteção contra radiação para as crianças, especialmente na Bielorrússia, onde ao longo dos próximos 25 a 30 anos radionuclídeos continuarão a contaminar plantas através das camadas das raízes no solo. Populações irradiadas de plantas e animais exibem uma variedade de deformidades morfológicas e têm níveis significativamente mais elevados de mutações que eram raras antes de 1986. A zona de Chernobil é um "buraco negro": algumas espécies persistem apenas através da migração de áreas não contaminadas.


A explosão do quarto bloco da central nuclear de Chernobil na Ucrânia em 26 de abril de 1986 foi o pior acidente tecnogênico da história. A informação apresentada nas primeiras 14 partes deste volume foi abstraída a partir dos milhares de artigos científicos e outros materiais citados. O que se segue aqui é um resumo dos principais resultados desta meta-análise das consequências da catástrofe de Chernobil.

A principal abordagem metodológica desta meta-análise é revelar as consequências de Chernobil, comparando as diferenças entre populações, incluindo territórios ou subgrupos que tiveram e têm diferentes níveis de contaminação, mas são comparáveis ​​entre si em suas características étnicas, biológicas, sociais e econômicas. Esta abordagem é claramente mais válida do que tentar encontrar correlações "estatisticamente significativas" entre as diversas doses recebidas pelas populações que são impossíveis de quantificar após o fato e os resultados na saúde que são definidos precisamente por dados de morbidade e mortalidade.

15.1. A Escala Global da Catástrofe

1. Como resultado da catástrofe, 40% da Europa foi contaminada com radioatividade perigosa. A Ásia e América do Norte também foram expostas a quantidades significativas de precipitação radioativa. Países contaminados incluem a Áustria, Finlândia, Suécia, Noruega, Suíça, Romênia, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, França, Grécia, Islândia e Eslovênia, bem como amplos territórios na Ásia, incluindo a Turquia, Geórgia, Arménia, os Emirados, China, e norte da África. Cerca de 400 milhões de pessoas estavam em áreas onde a radioatividade excedeu o nível de 4 kBq/m2 (≥ 0,1 Ci/km2) durante o período de abril a julho de 1986.

2. A Bielorrússia em especial foi fortemente contaminada. Vinte e três anos depois da catástrofe cerca de 5 milhões de pessoas, incluindo cerca de 1 milhão de crianças, vivem em vastas áreas da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia europeia, onde níveis perigosos de contaminação radioativa persistem (ver Capítulo 1).

3. A reivindicação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR), e vários outros grupos que a precipitação radioativa de Chernobil acrescentou "apenas" 2% a radiação de fundo natural ignora vários fatos:
• Primeiro, muitos territórios continuam a ter níveis perigosamente elevados de radiação.
• Segundo, altos níveis de radiação foram espalhados por toda parte nas primeiras semanas depois da catástrofe.
• Terceiro, haverá décadas de contaminação crônica de baixo nível, após a
catástrofe (Fig. 15.1).
• Quarto, cada aumento de radiação nuclear tem um efeito sobre as células somáticas e reprodutivas de todos os seres vivos.

4. Não há justificativa científica para o fato de que especialistas da AIEA e da Organização Mundial da Saúde (OMS) (Chernobyl Forum, 2005) terem negligenciado completamente os extensos dados sobre as consequências negativas da contaminação radioativa em outras áreas além da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia europeia, onde cerca de 57% dos radionuclídeos de Chernobil foram depositados.

15.2. Obstáculos para a Análise das Consequências de Chernobil

1. Entre as razões que complicam uma estimativa em escala global do impacto da catástrofe de Chernobil na saúde estão as seguintes:
Política oficial de segredo e falsificação irreparável das estatísticas médicas na União Soviética nos primeiros 3,5 anos depois da catástrofe.
• Falta de estatísticas médicas confiáveis e detalhadas na Ucrânia, Bielorrússia e Rússia.
• Dificuldade em estimar as reais doses radioativas individuais, em vista de: (a) reconstrução das doses nos primeiros dias, semanas e meses após a catástrofe, (b) incerteza quanto à influência departículas quentes” individuais; (c) problemas quanto à contaminação desigual e irregular, e (d) a incapacidade para determinar a influência de cada um dos muitos radionuclídeos, isoladamente e combinados.
Inadequação do conhecimento moderno, quanto a: (a) o efeito específico de cada um dos muitos radionuclídeos; (b) sinergia das interações de radionuclídeos entre si e com outros fatores ambientais, (c) diferenças da radiossensibilidade da população e individual; (d) impacto das taxas e doses ultrabaixas e (e) o impacto da radiação absorvida internamente em vários órgãos e sistemas biológicos.

2. A demanda dos especialistas da AIEA e OMS que exigiram uma "correlação significativa" entre os níveis imprecisamente calculados de radiação individual (e, portanto, grupos de indivíduos) e as doenças diagnosticadas com precisão como a única prova concreta associando doenças com a radiação de Chernobil não é, em nosso ponto de vista, cientificamente válido.

3. Acreditamos que é cientificamente incorreto rejeitar dados gerados por muitos milhares de cientistas, médicos e outros especialistas que observaram diretamente o sofrimento de milhões de pessoas afetadas pela precipitação radioativa na Bielorrússia, Ucrânia e Rússia como "incompatíveis com protocolos científicos." É cientificamente válido encontrar maneiras de extrair informações válidas a partir desses dados.

4. A informação objetiva sobre o impacto da catástrofe de Chernobil sobre a saúde pode ser obtida de várias maneiras:
• Comparar a morbidade e a mortalidade de territórios com idênticos aspectos fisiográficos, sociais e econômicos e que diferem apenas nos níveis e espectro da contaminação radioativa a que foram e estão sendo expostos.
• Comparar a saúde do mesmo grupo de indivíduos durante períodos específicos após a catástrofe.
• Comparar a saúde do mesmo indivíduo em relação a desordens ligadas à radiação e que não são função da idade ou sexo (e.g., ​​aberrações cromossómicas estáveis).
• Comparar a saúde dos indivíduos que vivem em territórios contaminados medindo o nível de Cs-137, Sr-90, Pu e Am incorporado. Este método é especialmente eficaz na avaliação de crianças que nasceram depois da catástrofe.
• Correlacionar alterações patológicas em órgãos específicos, medindo os níveis de radionuclídeos incorporados.

A documentação objetiva das consequências da catástrofe requer a análise do estado de saúde de cerca de 800,000 liquidadores (as pessoas responsáveis pela limpeza de Chernobil), centenas de milhares de desabrigados, e aqueles que voluntariamente deixaram os territórios contaminados da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia (e seus filhos), que estão vivendo agora fora destes territórios, até mesmo em outros países.

5. É necessário determinar territórios na Ásia (incluindo o Transcáucaso, Irã, China, Turquia, Emirados), norte da África e América do Norte que foram expostos à precipitação de Chernobil de abril a julho de 1986 e analisar as estatísticas médicas detalhadas destes territórios e seus arredores.

15.3. Consequências para a Saúde devido à Chernobil

1. Um aumento significativo da morbidade geral é aparente em todos os territórios estudados contaminados por Chernobil.

2. Dentre específicos transtornos de saúde associados à radiação de Chernobil, houve um aumento da morbidade e prevalência dos seguintes grupos de doenças:
Sistema circulatório (devido principalmente à destruição radioativa do endotélio, o revestimento interno dos vasos sanguíneos).
• Sistema Endócrino (especialmente patologias de tireoide não-maligna).
• Sistema Imunológico ("AIDS de Chernobil," aumento da incidência e da gravidade de todas as doenças).
Sistema respiratório.
Trato urogenital e distúrbios reprodutivos.
Sistema esquelético-muscular (incluindo alterações patológicas na estrutura e composição dos ossos: osteopenia e osteoporose).
• O sistema nervoso central (alterações nos lobos frontal, temporal e ocipitoparietal do cérebro, acarretando inteligência diminuída e distúrbios mentais e comportamentais).
• Olhos (catarata, destruição vítrea, anomalias de refração e desordens conjuntivas).
Aparelho digestivo.
• Malformações congênitas e anomalias (incluindo, anteriormente, raros defeitos múltiplos dos membros e cabeça).
Câncer de tireoide (Todas as previsões relativas a este câncer foram errôneas; cânceres de tireoide relacionados com Chernobil se instalam rapidamente e tem desenvolvimento agressivo, atingindo tanto crianças como adultos. Após a cirurgia, as pessoas se tornam dependentes de medicamentos para reposição hormonal por toda a vida).
• Leucemia (câncer no sangue), não apenas em crianças e liquidadores, mas na
população adulta em geral dos territórios contaminados.
• Outras neoplasias malignas.

3. Outras consequências para a saúde da catástrofe:
• Alterações no equilíbrio biológico do organismo, levando ao aumento do número de doenças graves devido à toxicoses intestinais, infecções bacterianas e sepse.
• Intensificação das doenças infecciosas e parasitárias (por exemplo, hepatites virais e viroses respiratórias).
• Maior incidência de problemas de saúde em crianças nascidas de pais irradiados (tanto de liquidadores quanto indivíduos que deixaram os territórios contaminados), especialmente aqueles irradiados no útero. Estes distúrbios envolvem praticamente todos os órgãos e sistemas do corpo, também incluem mudanças genéticas.
Estado catastrófico da saúde dos liquidadores (especialmente aqueles que trabalharam em 1986-1987).
Envelhecimento prematuro tanto de adultos quanto crianças.
• Maior incidência de mutações múltiplas genéticas e somáticas.

4. Doenças crônicas associadas à contaminação radioativa estão disseminadas em liquidadores e na população vivendo em territórios contaminados. Entre esses indivíduos polimorbidade é comum, ou seja, as pessoas são muitas vezes afetadas por múltiplas doenças ao mesmo tempo.

5. Chernobil “enriqueceu” a medicina no mundo com termos como "rejuvenescimento do câncer", bem como três novas síndromes:
• "Distonia vegetovascular" – regulação disfuncional do sistema nervoso envolvendo órgãos cardiovasculares e outros (também chamado de disfunção do sistema nervoso autônomo), com sinais clínicos que se apresentam em um contexto de estresse.
• "Radionuclídeos de longa-vida incorporados" – distúrbios funcionais e estruturais dos sistemas cardiovascular, nervoso, endócrino, reprodutivo entre outros devido aos radionuclídeos absorvidos.
• "Lesões agudas de inalação no sistema respiratório superior" – uma combinação de rinite, irritação na garganta, tosse seca, dificuldade para respirar e falta de ar devido ao efeito da inalação de radionuclídeos, incluindo "partículas quentes".

6. Várias novas síndromes, refletindo o aumento da incidência de algumas doenças, apareceram depois de Chernobil. Entre elas:
• "Síndrome da fadiga crônica" – fadiga excessiva e sem alívio, fadiga sem causa aparente, depressão periódica, perda de memória, dores articulares e musculares difusas, calafrios e febre, alterações frequentes de humor, sensibilidade linfonodal cervical, perda de peso, e também é frequentemente associada com disfunção do sistema imunológico e doenças do sistema nervoso central.
• "Síndrome da doença de irradiação prolongada" – uma combinação de fadiga excessiva, tontura, tremores, e dor nas costas.
• "Síndrome do envelhecimento precoce" – uma divergência entre a idade física e cronológica com doenças características de idosos ocorrendo em jovens.

7. Síndromes específicas de Chernobil como "irradiação no útero", "AIDS de Chernobil", "coração de Chernobil", "membros de Chernobil", e outras aguardam descrições médicas mais detalhadas e definitivas.

8. O quadro completo de deterioração da saúde nos territórios contaminados ainda está longe de completa, apesar de uma grande quantidade de dados. A pesquisa médica, biológica e radiológica precisa aumentar e ser apoiada para fornecer o quadro completo das consequências de Chernobil. Em vez disso, essa pesquisa tem sido suprimida na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia.

9. Deterioração da saúde pública (especialmente das crianças) nos territórios contaminados por Chernobil 23 anos depois da catástrofe não é devido ao estresse psicológico ou radiofobia, ou reassentamento, mas é sobretudo e principalmente devido à radiação de Chernobil. Sobreposto ao primeiro forte choque em 1986 está a contínua exposição crônica de radionuclídeos de pequenas doses com baixas taxas.

10. Fatores psicológicos ("fobia de radiação") simplesmente não podem ser a razão definitiva porque a morbidade continuou a aumentar durante alguns anos após a catástrofe, enquanto as preocupações quanto a radiação diminuíram. E qual é o nível de fobia de radiação entre ratazanas, andorinhas, rãs e pinheiros que demonstram semelhantes problemas de saúde, incluindo taxas de mutação aumentadas? Não há dúvida que fatores sociais e econômicos são terríveis para os doentes devido à radiação. Crianças doentes, deformadas e deficientes, morte de familiares e amigos, perda de emprego e deslocamento são sérios fatores de estresse financeiro e mental.

15.4. Número Total de Vítimas

1. As primeiras estimativas oficiais da AIEA e OMS previram poucos casos adicionais de câncer. Em 2005, o Chernobyl Forum declarou que o número total de mortos por causa da catástrofe seria de cerca de 9.000 e o número de doentes cerca de 200.000. Estes números não conseguem distinguir doenças e mortes relacionadas à radiação de mortalidade e morbidade natural de uma grande base populacional.

2. Logo após a catástrofe a expectativa média de vida diminuiu visivelmente enquanto morbidade e mortalidade aumentaram em crianças e idosos na União Soviética.

3. Comparações estatísticas detalhadas de territórios altamente contaminados com os territórios pouco contaminados mostraram um aumento na taxa de mortalidade na parte contaminada da Rússia europeia e Ucrânia de 3,75% e 4,0%, respectivamente, entre os primeiros 15 a 17 anos após a catástrofe.

4. De acordo com avaliações baseadas em análises detalhadas de estatísticas demográficas oficiais nos territórios contaminados da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia europeia, o número de mortes adicionais por causa de Chernobil para os primeiros 15 anos após a catástrofe chega a cerca de 237.000 pessoas. É seguro assumir que o total de mortes devido a Chernobil do período de 1987 a 2004, atingiu cerca de 417.000 em outras partes da Europa, Ásia e África, e quase 170.000 na América do Norte, resultando em quase 824.000 mortes no mundo.

5. Os números de vítimas de Chernobil continuarão a aumentar por várias gerações.

15.5. Liberações de Chernobil e as Consequências Ambientais

1. O transporte de radionuclídeos de Chernobil de meia-vida longa pela água, ventos e animais migratórios causa (e continuará a causar) contaminação radioativa secundária a centenas e milhares de quilômetros de distância da central nuclear ucraniana Chernobil.

2. Todas as previsões iniciais de remoção rápida ou decaimento dos radionuclídeos de Chernobil do ecossistema estavam erradas: está levando muito mais tempo do que previsto porque eles recirculam. O estado geral de contaminação na água, ar e solo parece flutuar muito e a dinâmica da contaminação de Sr-90, Cs-137, Pu e Am ainda apresentam surpresas.

3. Como resultado da acumulação de Cs-137, Sr-90, Pu e Am na camada das raízes do solo, radionuclídeos continuaram a acumular nas plantas nos últimos anos. Movimentando-se com a água para as partes superiores das plantas, os radionuclídeos (que anteriormente tinham desaparecido da superfície) concentram-se nos componentes comestíveis, resultando em altas doses e níveis de radiação interna nas pessoas, apesar da decrescente quantidade total de radionuclídeos devido à desintegração natural ao longo do tempo.

4. Como resultado da bioacumulação de radionuclídeos, a quantidade nas plantas, fungos e animais pode aumentar 1.000 vezes em comparação com concentrações no solo e na água. Os fatores de acumulação e de transição variam consideravelmente em cada estação, mesmo para a mesma espécie, tornando difícil discernir níveis perigosos de radionuclídeos em plantas e animais que parecem ser seguros para comer. Apenas um monitoramento direto pode determinar os níveis reais.

5. Em 1986, os níveis de radiação em plantas e animais na Europa ocidental, América do Norte, Ártico, e Ásia oriental eram, por vezes, centenas e até milhares de vezes acima dos padrões aceitáveis. O pulso inicial de alto nível de radiação seguido pela exposição crônica a baixos níveis de radionuclídeos resultou em distúrbios morfológicos, fisiológicos e genéticos em todos os organismos vivos nas áreas contaminadas que foram estudados – plantas, mamíferos, aves, anfíbios, peixes, invertebrados, bactérias e vírus.

6. Vinte anos depois da catástrofe todos os animais de caça nas áreas contaminadas da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia europeia têm altos níveis de radionuclídeos de Chernobil. Ainda é possível encontrar alces, javalis e corças que foram perigosamente contaminados na Áustria, Suécia, Finlândia, Alemanha, Suíça, Noruega e vários outros países.

7. Todas as populações afetadas de plantas e animais que foram objetos de estudos detalhados mostram uma grande variedade de deformidades morfológicas que eram raras ou desconhecidas antes da catástrofe.

8. A estabilidade do desenvolvimento individual (determinado pelo nível de simetria flutuante – um método específico para a detecção do nível de instabilidade do desenvolvimento individual) reduziu em todas as plantas, peixes, anfíbios, pássaros e mamíferos que foram estudados nos territórios contaminados.

9. O número dos grãos de pólen geneticamente anômalos e subdesenvolvidos e esporos no solo contaminado radioativamente por Chernobil indica uma perturbação geobotânica.

10. Todas as plantas, animais e micro-organismos que foram estudados nos territórios contaminados por Chernobil têm níveis significativamente mais elevados de mutações do que aqueles em áreas menos contaminadas. A exposição crônica à baixa dose nos territórios de Chernobil resulta em uma acumulação transgeracional de instabilidade genômica, que se manifesta com efeitos celulares e sistêmicos. As taxas de mutação em alguns organismos aumentaram durante as últimas décadas, apesar da diminuição no nível local de contaminação radioativa.

11. A vida selvagem na zona altamente contaminada de Chernobil, por vezes, parece florescer, mas a aparência é enganadora. De acordo com testes morfogenéticos, citogenéticos e imunológicos, todas as populações de plantas, peixes, anfíbios e mamíferos que foram estudados estão em condições precárias. Esta zona é análoga a um "buraco negro" – algumas espécies só perseveram ali através de migração de áreas não contaminadas. A zona de Chernobil é a "caldeira" microevolutiva onde os genes dos seres vivos estão se transformando, com consequências imprevisíveis.

12. O que aconteceu com ratazanas e sapos na zona de Chernobil evidencia o que pode acontecer aos seres humanos em gerações futuras: aumento das taxas de mutação, aumento da morbidade e mortalidade, expectativa de vida reduzida, diminuição da intensidade de reprodução e mudanças na proporção entre os sexos masculino/feminino.

13. Para uma melhor compreensão dos processos de transformação da vida selvagem nas áreas contaminadas por Chernobil, estudos científicos radiobiológicos e outros não devem ser interrompidos, como aconteceu em todos os lugares da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia, mas devem ser ampliados e intensificados para melhor compreender e ajudar a mitigar as consequências esperadas e inesperadas.

15.6. Esforços Sociais e Ambientais para Minimizar as Consequências da Catástrofe

1. Para centenas de milhares de indivíduos (em primeiro lugar, na Bielorrússia, mas também em vastos territórios da Ucrânia, Rússia, e em algumas áreas de outros países) a radiação adicional de Chernobil ainda excede o nível considerado "seguro" de 1 mSv/ano.

2. Atualmente para as pessoas que vivem nas regiões contaminadas da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia, 90% da dose de radiação nelas é devido ao consumo de alimentos locais contaminados, por isso medidas devem ser disponibilizadas para livrar seus corpos dos radionuclídeos incorporados (ver Capítulo IV. 12-14).

3. Várias medidas foram tomadas para produzir alimentos limpos e reabilitar o povo da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia europeia. Estas incluem a aplicação de quantidades adicionais de fertilizantes selecionados, programas especiais para reduzir os níveis de radionuclídeos em produtos agrícolas e carne, organizar alimentos livre de radionuclídeos para escolas e creches e programas especiais para reabilitar crianças periodicamente realocando-as para locais não contaminados. Infelizmente essas medidas não são suficientes para aqueles que dependem de alimentos de suas hortas individuais, ou das florestas locais e cursos d’água.

4. É extremamente importante desenvolver medidas para diminuir o acúmulo de Cs-137 dos habitantes das áreas contaminadas. Estes níveis, que são baseadas em dados disponíveis sobre o efeito de radionuclídeos incorporados na saúde, são de 30 a 50 Bq/kg para crianças e de 70 a 75 Bq/kg para adultos. Em algumas aldeias da Bielorrússia, em 2006, algumas crianças tinham níveis de até 2.500 Bq/kg!

5. A experiência do Instituto BELRAD na Bielorrússia demonstrou que medidas de desincorporação devem ser introduzidas quando os níveis de Cs-137 se tornarem maiores que 25 a 28 Bq/kg. Isto corresponde a 0,1 mSv/ano, o mesmo nível que de acordo com a UNSCEAR uma pessoa inevitavelmente recebe de radiação externa vivendo nos territórios contaminados.

6. Devido ao consumo individual e familiar de alimentos e a variável disponibilidade local de alimentos, monitoramento permanente de radiação em produtos alimentares locais é necessário em conjunto com medições de níveis de radionuclídeos individuais, especialmente em crianças. Deve haver um enrijecimento generalizado nos níveis admissíveis de radionuclídeos em alimentos locais.

7. A fim de diminuir a radiação a um nível considerado seguro (1 mSv/ano) para aqueles em áreas contaminadas da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia é considerado boa prática:
• Aplicar fertilizantes minerais pelo menos três vezes por ano em todas as terras agrícolas, incluindo hortas, pastos e campos de feno.
Adicionar lignina solúvel e K em ecossistemas florestais dentro de um raio de até 10 km de assentamentos para a redução efetiva de Cs-137 em cogumelos, nozes e frutas silvestres que são importantes alimentos locais.
• Fornecer consumo individual regular de solventes parentéricos de pectina natural (derivado de maçãs, groselhas, etc) durante 1 mês, pelo menos quatro vezes por ano e incluir sucos com pectina diariamente para crianças em creches e escolas para promover a excreção de radionuclídeos.
Adotar medidas preventivas em leite, carne, peixe, vegetais e outros produtos alimentares locais para reduzir os níveis de radionuclídeos.
• Usar solventes parentéricos (ferrocianetos, etc) quando animais de corte estiverem na engorda.

8. Para diminuir os níveis de doenças e promover a reabilitação é uma boa prática nas áreas contaminadas fornecer:
Avaliação individual anual de níveis reais de radionuclídeos incorporados usando um contador de radiação de corpo inteiro (para crianças, isto deve ser feito trimestralmente).
• Reconstrução de todos os níveis individuais de radiação externa do período inicial após a catástrofe usando ​​dosimetria EPR e medição de aberrações cromossômicas, etc. Isto deve incluir todas as vítimas, incluindo aqueles que saíram das áreas contaminadas liquidadores, evacuados e migrantes voluntários e seus filhos.
• Consultas genéticas obrigatórias nos territórios contaminados (e voluntária para
todos os cidadãos em idade fértil) devido aos graves riscos de malformações congênitas nos descendentes. Usando as características e o espectro de mutações no sangue ou na medula óssea de futuros pais, é possível definir o risco de dar à luz a uma criança com graves malformações genéticas e assim evitar tragédias familiares.
Diagnóstico pré-natal de graves malformações congênitas e apoio a programas de aborto para as famílias que vivem nos territórios contaminados da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia.
• Triagem oncológica regular e práticas médicas preventivas e antecipatórias para a população dos territórios contaminados.

9. A catástrofe de Chernobil mostrou claramente que é impossível fornecer proteção contra a contaminação radioativa usando apenas recursos nacionais. Nos primeiros 20 anos, o dano econômico direto à Bielorrússia, Ucrânia e Rússia ultrapassou 500 bilhões de dólares. Para mitigar algumas das consequências, a Bielorrússia gasta cerca de 20% do seu orçamento anual nacional, a Ucrânia até 6% e a Rússia até 1%. Ajuda internacional em larga escala será necessária para proteger as crianças por pelo menos nos próximos 25 a 30 anos, especialmente aquelas na Bielorrússia porque os radionuclídeos permanecem nas camadas de raízes mais profundas do solo.

10. O não fornecimento de iodo estável em abril de 1986 para aqueles nos territórios contaminados levou a um aumento substancial no número de vítimas. Doenças de tireoide são uma das primeiras consequências quando uma usina nuclear falha, portanto um sistema confiável é necessário para levar esta substância química simples para todos aqueles no caminho da contaminação nuclear. Está claro que os países com usinas nucleares devem ajudar a todos os países estocar iodeto de potássio em caso de outra catástrofe da uma usina nuclear.

11. A tragédia de Chernobil mostrou que sociedades em qualquer lugar (e especialmente no Japão, França, Índia, China, Estados Unidos e Alemanha) devem considerar a importância da monitorização independente de radiação de alimentos e níveis individuais de radiação com o objetivo de amenizar o perigo e prevenir danos adicionais.

12. O monitoramento de radionuclídeos incorporados, especialmente em crianças, é necessário em torno de todas as usinas nucleares. Esta monitorização deve ser independente da indústria nuclear e os resultados devem ser disponibilizados para o público.

15.7. Organizações Associadas com a Indústria Nuclear Protegem a Indústria Primeiro – Não o Público

1. Uma lição importante da experiência de Chernobil é que especialistas e organizações ligadas à indústria nuclear têm rejeitado e ignorado as consequências da catástrofe.

2. Em apenas 8 ou 9 anos após a catástrofe um aumento generalizado de catarata foi admitido por autoridades médicas. O mesmo ocorreu com câncer de tireoide, leucemia e distúrbios do sistema nervoso central. Lentidão no reconhecimento de problemas óbvios e os atrasos resultantes na prevenção da exposição e mitigação dos efeitos jazem na porta de defensores da indústria nucleares mais interessados ​​em preservar o status quo do que ajudar milhões de pessoas inocentes que estão sofrendo sem terem culpa. É preciso mudar o acordo oficial entre a OMS e a AIEA (WHO, 1959) que fornece maneiras de ocultar do público qualquer informação que pode ser indesejada pela indústria nuclear.

15.8. É Possível Esquecer Chernobil

1. Os dados crescentes sobre os efeitos negativos da catástrofe de Chernobil para a saúde pública e a natureza não é uma boa sinalização para otimismo. Sem programas especiais nacionais e internacionais de larga escala, a morbidade e mortalidade nos territórios contaminados aumentarão. Moralmente é inexplicável o que os especialistas associados com a indústria nuclear dizem: "É hora de esquecer Chernobil".

2. Políticas sólidas e eficazes, nacionais e internacionais, para mitigar e minimizar as consequências de Chernobil devem ser baseadas no princípio: "É necessário aprender e minimizar as consequências desta terrível catástrofe".

15.9. Conclusão

O presidente dos EUA, John F. Kennedy falando sobre a necessidade de parar os testes nucleares na atmosfera, disse em junho de 1963:

. . . O número de crianças com câncer em seus ossos, com leucemia no sangue, ou com veneno em seus pulmões pode parecer estatisticamente pequeno para alguns, em comparação com os perigos naturais à saúde, mas este não é um perigo natural para a saúde – e não é uma questão estatística. A perda de até mesmo uma vida humana ou a malformação de apenas um bebê – que pode nascer muito depois que nos formos – deve ser motivo de preocupação para todos nós. Nossos filhos e netos não são apenas estatísticas, às quais podemos ser indiferentes.

A catástrofe de Chernobil demonstra que a vontade da indústria nuclear em arriscar a saúde da humanidade e nosso ambiente, com usinas nucleares vai resultar, não só teoricamente, mas na prática, no mesmo nível de perigo que as armas nucleares.


Referências

Chernobyl Forum (2005). Environmental Consequences of the Chernobyl Accident and Their Remediation: Twenty Years of Experience. Report of the UN Chernobyl Forum Expert Group “Environment” (EGE) Working Draft, August 2005 (IAEA, Vienna): 280 pp. (//www-pub.iaea.org/MTCD/publications/PDF/ Pub1239_web.pdf).
Kennedy, J. F. (1963). Radio/TV address regarding the Nuclear Test Ban Treaty, July 26, 1963 (//www.ratical.org/radiation/inetSeries/ChernyThyrd.html).
Mulev, St. (2008). Chernobyl’s continuing hazards. BBC News website, April 25, 17.25. GMT (//www.news.bbc.co.uk/1/hi/world/europe/4942828.stm).
WHO (1959). Resolution World Health Assembly. Rez WHA 12–40, Art. 3, §1 (//www.resosol.org/InfoNuc/IN_DI.OMS_AIEA.htm).





Conclusão do Capítulo IV

Nos últimos dias da primavera e início do verão de 1986, radioatividade foi liberada da usina de Chernobil e caiu sobre centenas de milhões de pessoas. Os níveis resultantes de radionuclídeos eram centenas de vezes maiores do que os da bomba atômica de Hiroshima.

As vidas de dezenas de milhões foram destruídas. Hoje, mais de 6 milhões de pessoas vivem em terras com níveis perigosos de contaminação do solo – e continuarão contaminadas durante décadas ou até séculos. Então, perguntas pertinentes são: como viver e onde viver?

Nos territórios contaminados pela precipitação de Chernobil é impossível praticar a agricultura de forma segura; impossível trabalhar com segurança na silvicultura, na pesca e caça; e é perigoso usar produtos alimentares locais ou beber leite e até mesmo água. Aqueles que vivem nessas áreas perguntam como evitar a tragédia de um filho ou filha nascido com malformações causadas pela radiação. Logo após a catástrofe essas sérias questões surgiram entre as famílias dos liquidadores, frequentemente tarde demais para evitar a tragédia.

Durante este tempo, complexas medidas para minimizar os riscos na agricultura e silvicultura foram desenvolvidos para aqueles que vivem nos territórios contaminados, incluindo a organização de proteção contra radiação individual, suporte para produção agrícola livre de radiação, e maneiras mais seguras na prática da silvicultura.

A maioria dos esforços para ajudar as pessoas dos territórios contaminados são conduzidos por programas estatais. O problema com esses programas é a duplicidade de fornecer ajuda enquanto espera minimizar as acusações de que a precipitação radioativa de Chernobil causou danos.

Para simplificar a vida para aqueles que sofrem dos efeitos da radiação uma grande quantidade de trabalhos educacionais e organizacionais tem que ser feito para monitorar radionuclídeos incorporados, monitorar (sem exceções) todos os géneros alimentícios, determinar doses cumulativas individuais usando métodos objetivos e fornecer aconselhamento médico e genético, especialmente para crianças.

Mais de 20 anos após a catástrofe, em virtude da migração natural de radionuclídeos, o perigo resultante nessas áreas não diminuiu, mas aumentou e continuará a crescer por muitos anos à frente. Assim, há a necessidade de expandir os programas para ajudar as pessoas que continuam sofrendo nos territórios contaminados, e isso exige assistência internacional, nacional, estadual e filantrópica.


Tradução de Francisco Roland Di Biase

Um comentário:

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